Sindicato dos Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios Telégrafos e Similares do Rio de Janeiro

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#SAIUNAMÍDIA – Em Mato Grosso, carteiros adoecem em seis anos de trabalho

Notícia publicada dia 20/02/2017 13:31

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Andar em Cuiabá, mesmo no período matutino, com uma bolsa de até 10 quilos é um trabalho para quem tem determinação

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Em Mato Grosso 10% dos carteiros estão afastados por algum problema de saúde. Dos 743 profissionais responsáveis por realizar as entregas de encomendas, apenas 666 estão na ativa. Tudo isso faz com que os profissionais andem até 12 quilômetros diariamente a pé, quando de moto essa quilometragem ultrapassa os 40 quilômetros e de bicicleta a média é de 16 km.

Segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios de Mato Grosso (Sintect-MT), as doenças que mais acometem os trabalhadores são bursite, problemas nas articulações e na lombar. O coordenador jurídico do sindicato, Alexandre Aragão, afirma que a vida profissional média de um carteiro, sem apresentar nenhum problema de saúde, dura apenas seis anos.

Para Edmilton Benedito, que há 12 anos trabalha na profissão, os problemas apareceram apenas no ano de 2016, quando detectou uma hérnia de disco. No entanto, os exames também denunciaram que, além da hérnia, a cartilagem entre os ossos da coluna estavam bastante desgastados, algo ocasionado pelos solavancos da bicicleta e da moto.

Benedito explica que dos 12 anos como entregador de cartas, cinco ele passou trabalhando em bicicleta e o restante em moto. Porém, esclarece que o serviço não se resume a entregar as encomendas: o trabalho de engenharia por trás se mostra bem mais complexo e desgastante.

Quando os pacotes chegam ao centro de distribuição, é necessário que os carteiros separem as encomendas por distritos, bairros e finalmente são colocadas por ordem de entrega, número por número. Segundo os profissionais, esse trabalho, que é realizado manualmente, exige esforço repetitivo e muita atenção no olhar.

“Muitas vezes você tem que manusear 30 mil objetos com 40 carteiros e colocar tudo em ordem de entrega. Numa dessas de ficar mexendo o braço, ombro, deu uma distensão muscular. Eu saí de dentro do Centro de Distribuição Domiciliária de ambulância”, relata Edmilton ao se lembrar de quando identificou o problema pela primeira vez.

Ele ainda afirma que para não errar na sequência de cartas os carteiros precisam do auxílio de um livro, com a numeração de todas as ruas de Cuiabá. Depois de colocado tudo em ordem, é preciso ir para a rua fazer a entrega de encomendas, o que também se transforma em outro problema.

A bolsa de encomendas deve conter no máximo 10 quilos, mas o volume de pacotes é bem maior. Então, é necessário que outra bolsa seja deixada em um ponto improvisado, previamente determinado.

Vendeu bens e agora pede ajuda dos amigos

Os carteiros também reclamam da Distribuição Domiciliária Alternada (DDA), pela qual cada profissional assume até dois distritos para fazer as entregas. Mas para quem anda de moto não há rota definida e, segundo Edmilton Benedito, a pressão é grande.

“Nós que trabalhamos em moto temos que espichar o trabalho. E numa ocasião, a moto derrapou comigo no bairro Santa Cruz, numa estrada de chão. Como não tinha ninguém para ajudar, fui levantar a moto e na hora senti dor nas costas”, relata.

Afastado desde o dia 12 de dezembro e sem receber o salário do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), Edmilton se viu obrigado a vender o carro e a moto para quitar dívidas. Além disso, ele recorre aos colegas de trabalho pedindo dinheiro emprestado. Ele poderá receber o benefício só após a realização da perícia médica, que está marcada para o dia 3 de maio próximo.

Sindicalista reclama da Distribuição Alternada 

O Sindicato dos Trabalhadores dos Correios reclama que existe um déficit de 400 carteiros para atender à demanda do Estado. Alexander Aragão relata que o número ideal seria de 1.143 profissionais, apenas para o cargo de carteiro. Para solucionar o problema, os Correios adotaram a Distribuição Domiciliária Alternada (DDA), que mescla distritos.

Aragão explica que o sistema mescla regiões de entrega e atribui o trabalho, que seria de duas pessoas, para apenas uma. Ele argumenta que a medida precariza o serviço e faz com que as encomendas cheguem ao endereço, no máximo, três vezes na semana.

“Por exemplo, no bairro Parque Cuiabá: digamos que não esteja implantado esse sistema, então você recebe a encomenda cinco vezes por semana.  Se implantar esse sistema, vai juntar o Parque Cuiabá e o Parque Atalaia. Aí, o carteiro vai fazer o Parque Atalaia na segunda-feira, na terça-feira o Parque Cuiabá…”, explica.

De acordo com o sindicalista, esse é um problema que só se resolve contratando, mas há seis anos não é realizado concurso público. O volume de serviços também é um problema, segundo ele, que não tem números exatos da quantidade de encomendas manuseadas diariamente pelos carteiros.

Aragão fez um levantamento quando a categoria realizou uma greve de 10 dias, em 2014. Em apenas um dia de greve, mais de 700 mil encomendas se acumularam. Segundo os Correios, o número de encomendas entregues diariamente, em todo Estado, é de até 14 mil.

Bicicleta quebra ao meio e carteiro lesiona os dois joelhos

Juzenil Dias lesionou os dois joelhos gravemente quando a bicicleta na qual trabalhava quebrou ao meio. Dias lembra que na hora não conseguiu se proteger, pois “nem imaginava que aquilo ia ocorrer”. Ele ainda diz que não houve nenhum impacto na bicicleta que pudesse ocasionar tal infortúnio.

Segundo o carteiro, ele bateu com os dois joelhos no chão e hoje, quase um ano após o sinistro, mal consegue subir as escadas da empresa, para alcançar o refeitório na hora do almoço. “Eu sempre peço para alguém pegar meu almoço e eu como aqui embaixo mesmo, porque eu não consigo subir essas escadas”, relata.

De acordo com Juzenil, as bikes são compradas e testadas no Estado do Paraná, mas que as que servem para aquela região não servem para esta, pois não atenderiam às mesmas especificidades geográficas.

Correios diz que aumentou efetivo em 118%, em 2007 

A Diretoria dos Correios em Mato Grosso informou, por meio de nota, que no Estado existem 156 agências e 12 Centros de Distribuição Domiciliar e que houve um aumento no número de trabalhadores em 118%, no ano de 2007. Os Correios reiteram que não existe falta de efetivo e que o número de empregados subiu de 1.324 naquela época para 1.572 neste ano.

De acordo com a nota, a empresa possui Sistema Distrital, em que são feitas projeções de contratações futuras para adequar o número de empregados às realidades locais.

Afirmou ainda que a rede foi aumentada em 50% nos últimos 10 anos e que foi investido mais de R$ 1 milhão em reformas, ampliações, climatização das unidades e construção do Centro de Tratamento de Cartas e Encomendas de Correios em Várzea Grande. São 50 linhas troco, que integram a rota de entrega, e nos últimos anos, quase 400 novos veículos passaram a integrar a frota da empresa.

Alega ainda que os Correios se adaptaram à nova realidade tecnológica, em Mato Grosso e outros Estados já existem máquinas de triagem automática, que têm capacidade para triar 40 mil objetos/hora. Sobre os critérios para comprar as bicicletas, informa que o processo de compra ocorre por meio de licitação e o tipo de veículo obedece às especificações técnicas elaboradas pela empresa.

Sobre os problemas de saúde do trabalho, argumenta que é conduta padrão dos Correios, por meio do serviço ambulatório da empresa, prestar atendimento médico aos empregados. Já sobre a cobrança de realização de concurso público, a empresa diz que aguarda novas diretrizes em relação ao certame e que assim que houver novidades dará ampla divulgação.

Fonte: Circuito MT

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